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Pesquisadores discutem sobre formação de cidades resilientes, mudanças climáticas e metodologias de avaliação

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Pesquisadores nacionais e internacionais  – da área de gestão de risco de desastres – deram continuidade aos debates temáticos,  no segundo dia do 1° Workshop Brasileiro para Avaliação de Ameaças, Vulnerabilidades, Exposição e Redução de Risco de Desastres – BRAHVE,  em duas mesas-redondas que ocorreram na parte da manhã, desta quarta-feira (07), no auditório do Parque Tecnológico de São José dos Campos.

Organizado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o evento reúne pesquisadores, instituições acadêmicas e científicas, Defesas Civis e profissionais da área de gestão de risco, envolvendo especialistas de sete países, para discutir sobre ações e estratégias para diminuição de risco de desastres, pesquisa e indicadores e Banco de Dados sobre desastres.

Com a participação de cientistas da  Costa Rica, Colômbia e México, a segunda mesa-redonda abordou sobre o Marco de Sendai, cidades resilientes e adaptação de mudanças climáticas.

 Metodologia para conceitos científicos visando melhor adequação das políticas públicas

“Para o problema de definição de conceitos na gestão de riscos de desastres, a utilização de ‘metadefinições’ possibilita sintetizar as principais ideias e as diferentes maneiras para definir um termo classificatório para desastres”. Essa foi uma das propostas abordada pelo pesquisador de Costa Rica, Alonso Brenes Torres, da Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales. Com a utilização da “metadefinição”, o pesquisador explica que é possível fazer o agrupamento de definições, permitindo tornar os grupos mais gerenciáveis, facilitando os estudos, análises, ações e respostas na gestão de risco de desastres.

Apresentando, como exemplo, o termo “seca”, a classificação pode ser desdobrada em conceitos como desertificação, falta de água, zonas secas e insegurança alimentar. Para a classificação de conceitos, Brenes faz a relação de “metadefinição” dividindo conforme a classificação do risco de desastre. Este, pode ser subdividido em ameaça, vulnerabilidade, risco e desastre. “Com isso, pode-se melhorar  a base instrumental para a compreensão do fenômeno e desenvolver uma harmonia conceitual e metodológica.”, explica. Na prática, essa metodologia facilita quebrar as barreiras entre o campo científico e a geração de políticas públicas.

Formação de cidades resilientes : a experiência em Medellín (Colômbia)

As ações recomendadas para fortalecer a resiliência da cidade de Medellín foram apresentadas pelo pesquisador Santiago Uribe, da Prefeitura de Medellín (Colômbia) e representando a Fundação Rockfeller. “O projeto de tornar a cidade resiliente foi definido a partir do diagnóstico de resiliência, determinando  quatro grandes objetivos de mudanças : cidade equitativa, segurança e paz, sustentabilidade e boa informação.”, afirma Uribe.

As áreas focadas para atingir os objetivos foram a violência-conflito, gestão de risco, educação e gestão de dados ou informações. Uribe explanou sobre as melhorias de vida e transformação urbana,  como na questão do transporte urbano, urbanismo, inovação e envolvimento das instituições.

Na parte de sustentabilidade, vários projetos foram implantados, entre eles, o programa de conhecimento e redução  de riscos. Diversas  ações foram feitas,  como  o fortalecimento do sistema de alerta de desastres. Apresentou, também o modelo programa de intervenção na ocupação urbana informal em áreas de risco, incentivo à agricultura, gestão ambiental sustentável e implantação de sistemas de barragens sustentáveis para diminuir os riscos de deslizamentos nas comunidades localizadas nessas áreas de risco.

Estratégia para mitigação de risco aos impactos das inundações em Cali (Colômbia)

O modelo das estratégias para diminuição de risco e dos impactos das inundações foram apresentadas pela pesquisadora Nayibe Jimenez (Colômbia) da Corporação OSSO, uma organização não-governamental que trata sobre ciências da Terra e prevenção de desastres.

O fenômeno La Niña, ocorrido entre 2010 e 2012, provocou inundações e deslizamentos em Cali (Colômbia), afetando 23 mil pessoas e atingindo 6 mil casas. A cidade é classificado como a detentora de maior risco do país, para tremores sísmicos e inundações. “Por isso, o projeto implantado denominado ‘Jarillón’  representa um marco histórico na gestão de risco na cidade.”, enfatiza a pesquisadora Jimenez. Apresentou o histórico do crescimento populacional nas áreas de risco e as características geo-hidrológicas da cidade e as medidas para a mitigação de risco, como a implantação de um  dique e um sistema de drenagem. Entre as considerações feitas pela pesquisadora, ela cita  que os moradores  são conscientes sobre os riscos,  mas, muitas vezes, não existe um mecanismo claro para consulta e informações junto à administração municipal. “O projeto de mitigação deve ser um tema da cidade, envolvendo diversos setores de interesse,  não só para população, mas também da administração municipal.”, afirma Nayibe Jimenez.

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 Experiências com os impactos do fenômeno El Niño no Peru

O pesquisador Fernando Briones, do México, da instituição “Consortium for Capacity Building (INSTARR-CCB), Universidade do Colorado-Boulder, apresentou as experiências e lições aprendidas para diminuir os impactos do fenômeno atmosférico-oceânico El Niño. O pesquisador apresentou três aprendizados : o primeiro, é identificar e compreender os riscos, vulnerabilidades, erros pasados e lições aprendidas. O segundo, é fazer a avaliação com métodos multidisciplinares, como análise quantitativa e qualitativa ( por exemplo, a matriz de conhecimento de desastres (DKM) e Indicadores para o El Niño. E o terceiro foi aplicar recomendações para desenvolver a prevenção e preparação.

A experiência obtida ocorreu entre o final de 2016 e os primeiros meses de 2017, quando foram observadas anomalias ao norte do Pacífico na costa do Peru. O debate em torno das condições anormais e as interpretações dos setores envolvidos produziram um contexto de confuso.

“A interpretação de dados de diferentes instituições (públicas e privadas) produziram um contexto de controvérsias, não favorecendo a tomada de decisões preventivas.”, pontuou Briones. Ele explicou que um cientista havia alertado sobre o potencial desenvolvimento de El Niño costeiro para o  final de 2016. Mas, as intuições públicas hesitaram em enviar  essas advertências à população.

Reduzindo os riscos atuais e futuros

David Stevens, representante no Brasil do Escritório das Nações Unidas para Redução do Risco de Desastres (UNISDR) fez uma breve retrospectivas de todos os acordos e documentos desde 2015 até o ano de 2030,  firmados em reuniões mundiais, bem como as agendas sobre clima, diminuição de risco de desastres e de desenvolvimento sustentável. “Temos que mudar o foco de “perdas por desastres” para “ reduzir riscos de desastres”, afirma Stevens.

“Devemos compreender e abordar fatores geradores de riscos, atuais e futuros”. Um conjunto de metas globais e princípios orientadores, compartilhamento de responsabilidades para a redução do risco de desastres e mobilização de investimentos são algumas das importantes ações para alcançar as metas de Sendai. Apresentou algumas matrizes sobre as ações de Sendai e abordagem sobre as cidades resilientes no Brasil. Apontou que reduzir os riscos não significa apenas estar preparado para a resposta. Considera que as estratégias de redução do risco e os Planos Nacionais de Adaptação devem ser integrados, também em nível local. Destaca que o Marco de Sendai e o Acordo de Paris apresentam um enfoque comum sobre a resiliência.

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Terceira mesa-redonda aborda estudos de avaliação de danos, metodologias de avaliação e experiência com o uso da plataforma DesInventar

Dados sobre desastres e a importância para a pesquisa e gestão de risco foi o tema apresentado pelo pesquisador  e diretor da CEPED – PR, Cap. Eduardo Gomes Pinheiro. Demonstrando os comparativos de metodologias  e estudos sobre desastres, o pesquisador apresenta modelos de avaliação de danos e aponta a importância para a utilização desses dados pelos gestores públicos e pesquisadores.

A metodologia Damage and Loss Assessment   ( DaLA) foi apresentada para ser utilizada no estudo comparativo realizado para analisar o mesmo evento. Essa metodologia foi desenvolvida em 1972 pela CEPAL – Comissão Econômica para a América Latina e Caribe.

“O resultado completo e detalhado desse trabalho está disponível num dos capítulos da publicação: Construindo um Estado Resiliente: o modelo paranaense para a gestão de riscos de desastres (CEPED/PR e Banco Mundial, 2017)”, informa o pesquisador Pinheiro.

DesInventar :Metodologia e software para compor Base de Dados

A pesquisadora do Cemaden, Viviana Muñoz, abordou sobre a importância da implementação de Banco de Dados nacional, integrando todos os dados e informações existentes e ampliando as informações. “A metodologia utilizada deve ser robusta e que possa “conversar” com outras bases de dados, inclusive de outros países para fazer análises regionais”. Essa é uma questão levantada, ao apresentar algumas iniciativas já existentes, sobre Banco de Dados de desastres. “Como estudar o impacto e adaptação às mudanças climáticas, em se tratando de uma questão transnacional, sem dados compatíveis com outros países da região?”,  pergunta a pesquisadora.

Cita, também outro desafio : o levantamento de dados quantitativos de vulnerabilidade,  já que o utilizado atualmente são mais dados qualitativos. “Como modelar o risco, a partir de dados quali-quantitativos?”,  questiona a pesquisadora Viviana Muñoz. Ela informa que o estudo da ameaça está consolidado e que são dois desafios a serem enfrentados: levantar dados de vulnerabilidade e desenvolver métodos para estudo (efetivo) do risco.

Apresentou o modelo da plataforma DesInventar,  como uma referência norteadora para levantamento de dados, análise e produto que será gerado e das ações que serão executadas,  ou das políticas que serão propostas. “Um banco de dados como o DesIventar não exclui outros bancos de dados, mas oferece a possibilidade de integração e comunicação entre eles.” , finaliza a pesquisadora.

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Base de dados e indicadores: uma proposta de compartilhamento

O pesquisador Andrés Velásquez, do Observatório Sismológico del Sur Occidente, da Colômbia, afirma que vê uma grande oportunidade do Brasil contribuir com dados e informações sobre riscos de desastres, em escala de níveis de impactos, desde os pequenos até os grandes impactos. Isso inclui, entre os dados, a localização e o panorama das perdas acumuladas, qualidade de vida socioeconômica, todos indicadores para análises, estudos e tomadas de decisões.

“É possível elaborar comparações com indicadores por períodos: 2005-2015, 2015-2020, por exemplo, dentro das ações estratégicas do Marco de Sendai. Utilizando as metodologias de indicadores, pode-se alcançar as metas de redução de risco de desastres e  definir  políticas de melhoras socioeconômicas da população.”, explica Velásquez.

“Temos uma metodologia que já dispõe de indicadores potenciais e poderemos disponibilizar ao Brasil, trabalhando em compartilhamento de dados entre todas as instituições. Espero  que, até 2019, possamos chegar a formar uma boa Base de Dados.” , finaliza o pesquisador.

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Visita de pesquisadores da América Latina na Sala de Situação do Cemaden, com a explanação sobre o sistema de monitoramento e emissão de alerta feita pelo coordenador-geral de Operações e Modelagens, Marcelo Seluchi , e pela diretora-substituta do Cemaden, Regina Alvalá.

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