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Boletim de impactos em áreas estratégicas para o Brasil – 15/10/2019

SUMÁRIO

A décima segunda edição do boletim mensal de previsão de impactos em atividades estratégicas para o Brasil, elaborado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), unidade de pesquisa do Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações (MCTIC), apresenta os cenários mais prováveis de impactos em diferentes setores do Brasil. Isso inclui tanto os recursos hídricos no decorrer do trimestre outubro, novembro e dezembro de 2019 (OND/2019) como, o Índice Integrado de Seca (IIS) em todo o Brasil e para a agricultura familiar de sequeiro, para o mês de setembro de 2019 e projeções para o mês de outubro de 2019. Também são abordadas a situação atual e as projeções de vazões afluentes aos reservatórios do Sistema Cantareira, Três Marias e Serra da Mesa, bem como os possíveis cenários para os volumes armazenados nos açudes monitorados no semiárido da Região Nordeste: Castanhão e Boqueirão, no decorrer do referido trimestre.

Para o Sistema Cantareira, em um cenário hipotético de chuvas na média climatológica, o modelo hidrológico projeta que a vazão afluente ficará abaixo da Média de Longo Termo (MLT[1]) no próximo trimestre (89% da MLT) e o armazenamento no sistema, no final de dezembro de 2019, ficará em torno de 47%, enquadrando-se na faixa de operação “atenção” (entre 40% a 60%), situação melhor quando comparada ao mesmo período de 2018 (40% de armazenamento). Para a bacia afluente ao reservatório Três Marias, o modelo hidrológico projeta uma vazão em torno de 75% da MLT, situação mais crítica quando comparada ao mesmo trimestre OND/2018 (89% da MLT). Para a bacia afluente ao reservatório Serra da Mesa, o modelo hidrológico projeta uma vazão próxima a 84% da MLT, e uma situação similar ao observado no trimestre OND/2018 (90% da MLT). As projeções para o açude Castanhão no Ceará, indicam que o volume armazenado nesse reservatório, reduzirá para até 3,4% de sua capacidade no final de dezembro de 2019, situação mais crítica quando comparada ao mesmo período de 2018 (4,3%). Para o açude Epitácio Pessoa/Boqueirão na Paraíba, as projeções indicam que, mantendo-se as extrações atuais e a suspensão dos aportes da transposição do Rio São Francisco, o armazenamento de água diminuirá para 16,7% de sua capacidade no final de dezembro de 2019, situação mais crítica em relação ao mesmo período de 2018 (22%).

No mês de setembro, em razão das condições de seca observadas, destaca-se o atraso no plantio de novas safras das principais culturas agrícolas (soja e milho) nos estados do centro-sul do Brasil, como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná e Santa Catarina. De acordo com o IIS, considerando um cenário de chuva 20% abaixo do esperado para o mês de outubro, a condição de estresse na vegetação poderá permanecer principalmente nessas regiões.

[1] A sigla MLT significa Média de Longo Termo ou, em outras palavras, média que representa a situação observada por longo período, geralmente igual ou maior que 30 anos.

IMPACTOS EM HIDROLOGIA

Evolução do Armazenamento no Sistema Cantareira

Figura 1 – Projeção da evolução do volume armazenado (%) no Sistema Cantareira, considerando a interligação Paraíba do Sul-Sistema Cantareira, de outubro de 2019 a março de 2020. As faixas coloridas indicam os limites operacionais estabelecidos na Resolução conjunta ANA/DAEE N° 925.

O Sistema Cantareira – sistema que abastece parte da região metropolitana de São Paulo – atingiu 45,5% de seu volume útil em 07 de outubro de 2019 (Figura 1), valor superior ao observado em 07 de outubro de 2018 (33,5%). A vazão média afluente aos reservatórios do Sistema Cantareira atingiu foi de 13 m³/s, representando 52% da média para setembro (24,5  m3/s). Nesta bacia, a precipitação foi de 51 mm em setembro de 2019, representando 59% da climatologia (1983-2018: 87 mm). Em um cenário de chuvas na média climatológica, o modelo hidrológico PDM/Cemaden[2] projeta que a vazão afluente média para o trimestre OND será em torno de 89% da MLT. Ainda considerando este mesmo cenário de chuvas, o volume útil armazenado poderá atingir valores em torno de 47% em 31 de dezembro de 2019, considerando a interligação com a bacia do rio Paraíba do Sul. Se essa interligação fosse desconsiderada, o volume útil poderia atingir valores em torno de 45%, situação melhor quando comparada ao mesmo período de 2018 (40% de armazenamento). Com este nível de armazenamento, a extração de água máxima permitida para o elevatório Santa Inês é de 31 m³/s. Esta simulação[3] considerou: (i) vazões afluentes simuladas pelo modelo hidrológico PDM/Cemaden; (ii) vazões defluentes para a bacia dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí iguais às médias praticadas entre os anos de 2014 e 2016 (abr-Out = 2,09 m³/s; Nov-Mar = 1,55 m³/s); (iii) vazão de extração para o Elevatório Santa Inês (abastecimento de São Paulo) de acordo com a resolução conjunta ANA/DAEE Nº 925; e (iv) interligação com a bacia do Rio Paraíba do Sul de acordo com a Nota Técnica Mar 016/2019 da SABESP.

[2] O PDM/Cemaden é um modelo probabilístico baseado na umidade do solo e utiliza como entradas a precipitação e a evapotranspiração potencial para estimar a vazão.

[3] Para mais informações no que se refere à elaboração das projeções hidrológicas, consultar o Website do Cemaden:
http://www.cemaden.gov.br/categoria/monitoramento/monitoramento-hidrologico/relatoriocantareira/

Reservatório de Três Marias, Bacia do Rio São Francisco

Nesta bacia, a precipitação foi de 35 mm em setembro de 2019, representando um valor de 68% da média climatológica (1983-2018: 52 mm). A vazão média afluente ao reservatório de Três Marias, no alto São Francisco, atingiu o valor de 75 m³/s, aproximadamente 39% da média para o mês de setembro considerando o período de 1983-2018 (195 m3/s). O armazenamento na bacia de três Marias, atingiu 59,4% em 06 de outubro de 2019, o que representa um valor mais otimista quando comparado ao mesmo período de 2018 (34,3%).De acordo com as projeções hidrológicas para o período de OND/2019, apresentadas na Figura 2, em um cenário hipotético de chuvas na média climatológica, a vazão afluente poderá atingir cerca de 75% (440 m³/s) da média histórica (584 m³/s, MLT: 1983-2018), situação mais crítica quando comparada ao mesmo trimestre OND/2018 (89% da MLT) Adicionalmente, em um cenário de precipitação na média climatológica considerando uma vazão defluente com média igual a 450 m³/s para o período de outubro a novembro e de 270 m³/s para dezembro, o reservatório poderá atingir 62% do volume útil no final de dezembro de 2019.

Reservatório de Serra da Mesa, Sistema Araguaia-Tocantins

Na bacia afluente a UHE Serra da Mesa, em setembro de 2019, a precipitação foi de 18 mm, representando um valor de 42% da climatologia (1983-2018: 43 mm). A vazão média afluente ao reservatório de Serra da Mesa, no alto do Rio Tocantins, foi de 92 m³/s, aproximadamente 49% da média histórica para o mês de setembro (189 m3/s), valor abaixo da vazão mínima histórica (período de 1983-2018) para o mês de setembro (94 m³/s no ano de 2016). Segundo as projeções hidrológicas para o período OND/2019, apresentadas na Figura 3, em um cenário hipotético de chuvas na média climatológica, a vazão afluente ficará em torno de 84% (480 m³/s) da média histórica (571 m³/s, MLT: 1983-2018), situação similar ao observado no trimestre OND/2018 (90% da MLT).

Figura 2 – Cenários de vazão natural média mensal (m³/s) ao reservatório de Três Marias, de outubro de 2019 a março de 2020.
Figura 3 – Cenários de vazão natural média mensal (m³/s) ao reservatório de Serra da Mesa, de outubro a dezembro/2019.

Projeções das Reservas Hídricas de Açudes Monitorados do Semiárido Brasileiro

O açude Castanhão (Ceará), o maior da Região Nordeste, operou com 4,2% de seu volume útil no dia 04 de outubro de 2019 (Figura 4), situação mais crítica quando comparada ao mesmo período de 2018 (6,0%). As projeções indicam que o volume armazenado nesse reservatório, reduzirá para até 3,4% de sua capacidade no final de dezembro de 2019, configurando uma situação mais crítica quando comparada ao mesmo período de 2018 (4,3%)Entretanto, esta simulação não considera eventuais armazenamentos em açudes menores na sua bacia de captação, o que pode alterar a presente simulação.

O açude Epitácio Pessoa/Boqueirão (Paraíba) operou com 19,6% de seu volume útil no dia 04 de outubro de 2019 (Figura 5), situação mais crítica quando comparado ao mesmo período de 2018 (27,7%). As projeções indicam que, mantendo-se as extrações atuais e a suspensão dos aportes da transposição do Rio São Francisco, o armazenamento de água diminuirá, podendo chegar a 16,7% de sua capacidade no final de dezembro de 2019, situação mais crítica em relação ao mesmo período de 2018 (22%). Ressalta-se que estes cenários podem ser alterados devido a mudanças na vazão da transposição e/ou na extração de água para o abastecimento público. A transposição das águas do rio São Francisco para o Estado da Paraíba, pelo eixo leste, foi temporariamente suspensa desde abril de 2018 devido a obras realizadas nos reservatórios de Camalaú e Poções, e ainda se encontra sem previsão de chegada das águas ao reservatório Epitácio Pessoa/Boqueirão. Em um cenário de precipitações na média climatológica para o próximo trimestre, considerando os aportes da transposição do Rio São Francisco, o volume armazenado no reservatório Epitácio Pessoa/Boqueirão aumentaria para 21,1% de sua capacidade total (Figura 05).

Figura 4 – Projeção da evolução do volume armazenado (%) no reservatório Castanhão para o trimestre OND/2019.
Figura 5 – Projeção da evolução do volume armazenado (%) no reservatório Boqueirão para o trimestre OND/2019.

 

IMPACTOS NA VEGETAÇÃO E AGRICULTURA DE SEQUEIRO

Projeção do Índice Integrado de Seca (IIS) em todo o Brasil para o mês de outubro de 2019

Em razão das condições de seca observadas no mês de setembro, destaca-se o atraso no plantio de novas safras das principais culturas agrícolas (soja e milho) devido à escassez de chuvas, nos estados do centro-sul do Brasil, como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná e Santa Catarina, conforme informações do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja/MS), do Departamento de Economia Rural (Deral) do Paraná e do Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola (Epagri/Cepa) de Santa Catarina (vide Boletim de Monitoramento de Seca no Brasil – Setembro de 2019).

De modo geral, o cenário do Índice Integrado de Seca (IIS) para o mês de outubro mostra condições de déficit hídrico, principalmente nos estados do Pará, Ceará, Rio Grande do Norte, Mato Grosso do Sul, oeste dos estados de São Paulo e Paraná (Figura 6).

Figura 6 – Índice Integrado de Seca (IIS) em todo o Brasil para o mês de setembro de 2019 (a) e projeções para o mês de outubro de 2019, considerando um cenário de chuvas 20% abaixo (b) e 20% acima da climatologia (c).

Projeção do Índice Integrado de Seca (IIS) para a atividade agropecuária

Segundo as projeções do IIS para o mês de outubro – que considera dados atualizados de sensoriamento remoto e projeções de chuva – em cenário de chuva abaixo do esperado, 98 municípios da região nordeste do país poderão apresentar condição de seca moderada a severa no mês de outubro de 2019.

Figura 7 – Índice Integrado de Seca (IIS) observado para o mês de setembro de 2019 (a) e projeções para o mês de outubro de 2019, considerando um cenário de chuvas 20% abaixo (b) e 20% acima da climatologia (c).

NOTAS EXPLICATIVAS

Índice Integrado de Seca (IIS)

O Índice Integrado de Seca (IIS) consiste na combinação do Índice de Precipitação Padronizada (SPI) com o Índice de Suprimento de Água para a Vegetação (VSWI) ou com o Índice de Saúde da Vegetação (VHI), ambos estimados por sensoriamento remoto. O SPI é um índice amplamente utilizado para detectar a seca meteorológica em diversas escalas temporais e pode ser interpretado como o número de desvios padrões nos quais a observação se afasta da média climatológica. Um valor negativo de SPI representa condições de déficit hídrico, nas quais a precipitação é inferior à média climatológica. Um valor positivo de SPI representa condições de excesso hídrico, que indicam precipitação superior à média histórica. Para integrar o IIS, o SPI é calculado a partir de dados observacionais de precipitação disponíveis no CEMADEN, no Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e Centros Estaduais de Meteorologia.

Para a compilação do IIS, os dados de SPIs, na escala de 6 meses, e o VSWI ou VHI são reclassificados e compatibilizados de forma que as classes de ambos os índices traduzam as mesmas intensidades de seca, as quais variam de fraca à excepcional.  O IIS é calculado mensalmente e apresentado com diferentes classes para as intensidades de seca.

Índice de Suprimento de Água para a vegetação (VSWI)

O VSWI é calculado a partir do Índice de Vegetação da Diferença Normalizada (NDVI, sigla em inglês) e da temperatura da superfície, ambos do sensor MODIS a bordo dos satélites Terra e Aqua, disponibilizadas pelo Earth Observing System (EOS/NASA). O VSWI indica condição de seca quando o valor do NDVI é baixo (baixa atividade fotossintética) e a temperatura da vegetação é alta (estresse hídrico). Portanto, o índice é inversamente proporcional ao conteúdo de umidade do solo e fornece uma indicação indireta do suprimento de água para a vegetação.

Índice de Saúde da Vegetação (VHI)

O VHI é calculado a partir do Índice de Condição da Vegetação (VCI) e do Índice da Condição da Temperatura (TCI). O VCI é a normalização do NDVI, utilizado para avaliar a densidade da vegetação em relação às condições padrões, permitindo verificar a variabilidade espacial e temporal das condições da vegetação, assim como quantificar o impacto dos eventos extremos.  O TCI é considerado um indicador de estresse térmico. A umidade do solo é reduzida em um evento de seca, causando estresse térmico na vegetação. O TCI permite identificar mudanças sutis na saúde da vegetação devido a efeitos térmicos. À medida que a seca se intensifica, a umidade do solo é reduzida causando o aumento da temperatura de brilho.

Diretor do Cemaden: Osvaldo Luiz Leal de Moraes

Coordenador Responsável: José A. Marengo

Revisor Científico desta Edição: José A. Marengo

Colaboradores: Adriana Cuartas, Ana Paula Cunha, Daniela França, Elisângela Broedel, Fabiani Bender, Karinne Deusdará-Leal, Lidiane Costa, Marcelo Seluchi, Márcio Moraes, Rafael Luiz, Valesca Fernandes

NOTAS IMPORTANTES:

1. Os relatórios com informações mais detalhadas sobre a situação atual das principais reservas hídricas e condições de seca em todo o País, bem como as projeções hidrológicas e possíveis cenários de impactos da seca, encontram-se disponíveis e atualizados no Website do Cemaden (https://www.cemaden.gov.br).

 2. As informações/produtos apresentados não podem ser usados para fins comerciais, copiados integral ou parcialmente para a reprodução em meios de divulgação, sem a expressa autorização do Cemaden/MCTIC e dos demais órgãos com os quais o Cemaden mantém parcerias. Os usuários deverão sempre mencionar a fonte das informações/dados da instituição como sendo do Cemaden/MCTIC. Ressaltamos que a geração e a divulgação das informações/produtos consideram critérios de qualidade e consistência dos dados.

 3. Registramos, ainda, que os dados da rede de monitoramento de desastres naturais disponibilizados via Mapa Interativo no website do Cemaden não passaram por nenhum tratamento, portanto poderá haver inconsistências nesses dados.

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