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Boletim de impactos em áreas estratégicas para o Brasil – 10/03/2020

SUMÁRIO

A presente edição do boletim mensal de Impactos em Atividades Estratégicas para o Brasil, elaborado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), unidade de pesquisa do Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações (MCTIC), apresenta os cenários mais prováveis de impactos em diferentes setores produtivos do Brasil. Isso inclui o diagnóstico (Fevereiro/2020) e projeção (Março/2020) do Índice Integrado de Seca (IIS) para todo o Brasil, avaliação dos impactos da seca na agricultura familiar de sequeiro e previsão de impactos nos recursos hídricos para o trimestre março-abril-maio de 2020 (MAM 2020). Em particular, são abordadas a situação atual e as projeções de vazões afluentes aos reservatórios do Sistema Cantareira, Três Marias e Serra da Mesa, bem como o cenário esperado para o volume armazenado do Rio Madeira na região Norte do país, no decorrer do referido trimestre.

A situação de armazenamento no Sistema Cantareira em 29 de fevereiro de 2020 (60%) é melhor quando comparada à situação de 28 de fevereiro de 2019 (48%). Em um cenário hipotético de chuvas na média climatológica, o modelo hidrológico projeta uma média de vazão afluente próximo à Média de Longo Termo (MLT[1]) no próximo trimestre. Considerando este mesmo cenário hipotético de chuvas, o armazenamento no final de maio de 2020 poderá atingir 69%, situação superior ao mesmo período do ano anterior (58% de armazenamento). Para as bacias afluentes aos reservatórios de Três Marias e Serra da Mesa, o modelo hidrológico projeta uma média de vazão em torno de 151% e 104% da MLT, respectivamente, situação mais otimista em comparação ao trimestre MAM de 2019 (78% e 83% da MLT, respectivamente).

O IIS referente ao mês de fevereiro aponta intensificação da seca na Região Sul do país e no Estado do Mato Grosso, com condição de seca fraca à extrema. O cenário do IIS para o mês de março (com chuva 30% abaixo da média) indica intensificação das condições de seca em diferentes regiões do país, enquanto o cenário do IIS para o mês de março com chuva 30% acima da média aponta para uma atenuação das condições de seca no país. A condição de seca para a região do semiárido será menos intensa se comparada com o mês de fevereiro, sendo que a projeção para o mês de março/2020 em cenário de chuvas 30% abaixo da climatologia mostra 35 municípios com condição de seca moderada.

[1] A sigla MLT significa Média de Longo Termo ou, em outras palavras, média que representa a situação observada por longo período, geralmente igual ou maior que 30 anos.

 

IMPACTOS EM HIDROLOGIA

Evolução do Armazenamento no Sistema Cantareira

Figura 1 – Histórico e cenários (março a setembro de 2020) de armazenamento (%) no Sistema Cantareira, considerando a interligação Paraíba do Sul-Sistema Cantareira. As faixas coloridas indicam os limites operacionais estabelecidos na Resolução conjunta ANA/DAEE N° 925.

 

O Sistema Cantareira – sistema que abastece parte da região metropolitana de São Paulo – atingiu 60% de seu volume útil em 29 de fevereiro de 2020 (Figura 1), valor superior ao observado no mesmo período de 2019 (48,2%). A média de vazão afluente aos reservatórios do Sistema Cantareira foi de 74 m³/s, representando 14% acima da média histórica do mês. A precipitação foi 310 mm, o que corresponde a 57% acima da climatologia. Em um cenário hipotético de chuvas na média climatológica, o modelo hidrológico PDM/Cemaden[2]projeta uma vazão afluente média em torno da média histórica para o trimestre MAM/2020. Ainda considerando este mesmo cenário de chuvas e a interligação com a bacia do rio Paraíba do Sul, o volume útil armazenado poderá atingir valores em torno de 69% em 31 de maio de 2020, situação semelhante quando comparada ao mês de maio de 2019 (58% de armazenamento). Com este nível de armazenamento, a extração de água máxima permitida para o elevatório Santa Inês é de 33 m³/s (faixa de operação “normal”). Para maiores informações, consulte o Boletim da Situação atual e projeção hidrológica para o Sistema Cantareira – março de 2020 (https://www.cemaden.gov.br/situacao-atual-e-projecao-hidrologica-para-o-sistema-cantareira-03032020/).

[2] O PDM/Cemaden é um modelo probabilístico baseado na umidade do solo e utiliza como entradas a precipitação e a evapotranspiração potencial para estimar a vazão.

Reservatório de Três Marias, Bacia do Rio São Francisco

Na bacia de Três Marias, no alto São Francisco, a precipitação foi de 287 mm em fevereiro de 2020, correspondente a 71% acima da média climatológica (1983-2019: 168 mm). A vazão média afluente nesta bacia atingiu o valor de 1690 m³/s, aproximadamente, 35% acima da média para o mês de fevereiro (1251 m3/s). O armazenamento na bacia de Três Marias atingiu 88,9% em 29 de fevereiro de 2020, valor superior ao período de 28 de fevereiro de 2019 (63,4%). De acordo com as projeções hidrológicas para o período de MAM de 2020, apresentadas na Figura 2, em um cenário hipotético de chuvas na média climatológica, a vazão afluente poderá atingir cerca de 51% acima da média histórica (715 m³/s), sendo essa situação mais favorável em comparação ao trimestre MAM de 2019 (78% da MLT). Adicionalmente, em um cenário de precipitação na média climatológica e considerando uma vazão defluente média igual a 1.276 m3/s para o período de 02 a 10 de março, de 650 m3/s entre 11 de março a 30 de abril e de 396 m3/s entre 01 a 31 de maio de 2020, o reservatório poderá atingir valores acima de 100% do volume útil no final de maio de 2020. Maiores informações podem ser encontrados no Boletim da Situação Atual e Projeção Hidrológica para o Reservatório Três Marias – Março de 2020 (https://www.cemaden.gov.br/situacao-atual-e-projecao-hidrologica-para-reservatorio-tres-marias-03022020/).

Figura 2 – Histórico e cenários (março a setembro de 2020) de vazão natural média mensal (m³/s) ao reservatório de Três Marias.
Figura 3 – Histórico e cenários (março a setembro de 2020) de vazão natural média mensal (m³/s) ao reservatório de Serra da Mesa.

Reservatório de Serra da Mesa, Sistema Araguaia-Tocantins

Na bacia afluente a usina hidrelétrica Serra da Mesa, no alto do Rio Tocantins, em fevereiro de 2020, a precipitação foi 304 mm, correspondente a 49% acima da média climatológica. Sua vazão média afluente foi 1.338 m³/s, valor próximo à média histórica para o mês de fevereiro e o reservatório operou com 17,8% de armazenamento em 29 de março de 2020. Segundo as projeções hidrológicas para o período MAM de 2020, apresentadas na Figura 3, em um cenário hipotético de chuvas na média climatológica, a vazão afluente ficará em torno de 104% da média histórica do período, situação mais favorável que no trimestre MAM de 2019 (83% da MLT). Considerando um cenário de chuvas na média climatológica para o próximo trimestre e considerando uma vazão defluente igual a 100 m³/s para março e abril e igual a 300 m³/s para maio, o reservatório poderá atingir 30% do volume útil no final de maio de 2020. Maiores informações podem ser encontrados no Boletim da Situação Atual e Projeção Hidrológica para o Reservatório Serra da Mesa – Fevereiro de 2020 (https://www.cemaden.gov.br/situacao-atual-e-projecao-hidrologica-para-o-reservatorio-de-serra-da-mesa-bacia-do-rio-tocantins-03032020/).

Previsões de vazão para a Bacia do Madeira

O rio Madeira encontra-se abaixo do nível de transbordamento no trecho que passa pela cidade de Porto Velho. No final de fevereiro e início de março de 2020, o rio apresentou aumento da vazão, com nível de água entrando na cota de alerta, com máximos registrados nos dias 01 e 03 de março de 15,96 e 15,98 metros, respectivamente. Apesar de o rio ter apresentado os respectivos máximos, não atingiu a cota de inundação que é de 17 metros. As previsões dos modelos numéricos (meteorológicos e de chuva-vazão acoplados – Figura 4) indicam que estamos passando pelo pico máximo de cheia e em meados do final do mês de março o rio Madeira tende a entrar no período de vazante, decorrente da redução do volume de chuva na região, que é típico desta época do ano.

Figura 4 – Previsão sazonal (4 meses) de vazão (m3/s) para o rio Madeira, em Porto Velho, segundo o modelo GloFAS acoplado ao modelo meteorológico do European Centre for Medium-Range Weather Forecasts (ECMWF).

 

 

IMPACTOS NA VEGETAÇÃO E AGRICULTURA DE SEQUEIRO

Índice Integrado de Seca (IIS): observado para o mês de fevereiro de 2020 e projeção para o mês de março de 2020 em todo o Brasil

De acordo com o Índice Integrado de seca (IIS) para o mês de fevereiro (Figura 5a), verifica-se intensificação da seca na Região Sul do país e no estado do Mato Grosso, com condição de seca fraca a extrema. Nos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, houve perdas significativas na agricultura, principalmente na produção de soja e de milho, devido à escassez de chuvas e ao calor excessivo. Em Santa Catarina, as regiões de Curitibanos e Campos de Lages (situadas na área com as maiores intensidades de seca do estado, moderada à extrema, conforme o IIS do mês de fevereiro) apresentam perdas na produtividade do milho estimadas em torno de 20%, na safra 2019/20, segundo o Boletim Agropecuário Epagri/Cepa de fevereiro de 2020. No Rio Grande do Sul, as culturas de milho e soja também têm sofrido grandes perdas. Estimativas preliminares da Emater/RS-Ascar para a safra de verão apontaram para uma redução de 21% na produção do milho e acima de 16% na produção de soja (que corresponde à principal cultura de verão do estado). Neste contexto, muitos produtores do estado que foram prejudicados tiveram que recorrer ao Proagro (Programa de Garantia da Atividade Agropecuária), segundo a Emater/RS-Ascar.

Em cenário mais crítico, de chuvas 30% abaixo da média (Figura 5b), o IIS para o mês de março de 2020 indica condições de seca similares às de fevereiro nas regiões Centro-Oeste e Sul do país, porém intensas nos estados do Paraná e Mato Grosso do Sul, e ocorrência de seca extrema nos estados do Mato Grosso, Paraná e Santa Catarina. A Região Norte do país apresenta intensificação das condições de seca, variando de fraca à extrema. O cenário do IIS, considerando chuvas 30% acima da média (Figura 5c), aponta para uma atenuação das condições de seca em grande parte do país.

Figura 5 – Índice Integrado de Seca (IIS) para todo o Brasil, observado no mês de fevereiro de 2020 (a) e projeções para o mês de março de 2020, considerando um cenário de chuvas 30% abaixo (b) e 30% acima da climatologia (c).

Impactos da seca na produção agrícola de sequeiro

Segundo as projeções do IIS para o mês de março/2020 – que considera dados atualizados de sensoriamento remoto e projeções de chuva – em um cenário com chuva 30% inferior à média histórica (Figura 6b), a condição de seca para a região do semiárido será menos intensa se comparada com o mês de fevereiro (Figura 6a). No mês de março/2020 para o cenário de chuvas 30% abaixo da climatologia 35 municípios devem apresentar condição de seca moderada (65 municípios com condição de seca moderada em fev./20 Figura 8a). A maioria destes municípios está localizada nos estados do Maranhão e Piauí. Em um cenário de chuva 30% acima da média climatológica (Figura 6c) a estimativa é de apenas 7 municípios com condição de seca moderada. Ressalta-se que essa região tem calendário agrícola vigente e encontra-se no seu período chuvoso, portanto é esperada a melhoria na condição de seca em relação a fevereiro.

Figura  – Índice Integrado de Seca (IIS) para a região do semiárido, observado para o mês de fevereiro de 2020 (a) e projeções para o mês de março de 2020, considerando um cenário de chuvas 30% abaixo (b) e 30% acima da climatologia (c).

 

NOTAS EXPLICATIVAS

Índice Integrado de Seca (IIS)

O Índice Integrado de Seca (IIS) consiste na combinação do Índice de Precipitação Padronizada (SPI) com o Índice de Suprimento de Água para a Vegetação (VSWI) ou com o Índice de Saúde da Vegetação (VHI), ambos estimados por sensoriamento remoto. O SPI é um índice amplamente utilizado para detectar a seca meteorológica em diversas escalas temporais e pode ser interpretado como o número de desvios padrões nos quais a observação se afasta da média climatológica. Um valor negativo de SPI representa condições de déficit hídrico, nas quais a precipitação é inferior à média climatológica. Um valor positivo de SPI representa condições de excesso hídrico, que indicam precipitação superior à média histórica. Para integrar o IIS, o SPI é calculado a partir de dados observacionais de precipitação disponíveis no CEMADEN, no Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e Centros Estaduais de Meteorologia.

Para a compilação do IIS, os dados de SPIs, na escala de 6 meses, e o VSWI ou VHI são reclassificados e compatibilizados de forma que as classes de ambos os índices traduzam as mesmas intensidades de seca, as quais variam de fraca à excepcional.  O IIS é calculado mensalmente e apresentado com diferentes classes para as intensidades de seca.

Índice de Suprimento de Água para a vegetação (VSWI)

O VSWI é calculado a partir do Índice de Vegetação da Diferença Normalizada (NDVI, sigla em inglês) e da temperatura da superfície, ambos do sensor MODIS a bordo dos satélites Terra e Aqua, disponibilizadas pelo Earth Observing System (EOS/NASA). O VSWI indica condição de seca quando o valor do NDVI é baixo (baixa atividade fotossintética) e a temperatura da vegetação é alta (estresse hídrico). Portanto, o índice é inversamente proporcional ao conteúdo de umidade do solo e fornece uma indicação indireta do suprimento de água para a vegetação.

Índice de Saúde da Vegetação (VHI)

O VHI é calculado a partir do Índice de Condição da Vegetação (VCI) e do Índice da Condição da Temperatura (TCI). O VCI é a normalização do NDVI, utilizado para avaliar a densidade da vegetação em relação às condições padrões, permitindo verificar a variabilidade espacial e temporal das condições da vegetação, assim como quantificar o impacto dos eventos extremos.  O TCI é considerado um indicador de estresse térmico. A umidade do solo é reduzida em um evento de seca, causando estresse térmico na vegetação. O TCI permite identificar mudanças sutis na saúde da vegetação devido a efeitos térmicos. À medida que a seca se intensifica, a umidade do solo é reduzida causando o aumento da temperatura de brilho.

Diretor do Cemaden: Osvaldo Luiz Leal de Moraes

Coordenador Responsável: José A. Marengo

Revisor Científico desta Edição: José A. Marengo

Colaboradores: Adriana Cuartas, Ana Paula Cunha, Ana Paula dos Santos, Conrado Rudorff, Daniela França, Elisângela Broedel, Fabiani Bender, Karinne Deusdará-Leal, Lidiane Costa, Marcelo Seluchi, Marcelo Zeri, Márcio Moraes, Rafael Luiz, Valesca Fernandes, Vinicius Sperling

NOTAS IMPORTANTES:

1. Os relatórios com informações mais detalhadas sobre a situação atual das principais reservas hídricas e condições de seca em todo o País, bem como as projeções hidrológicas e possíveis cenários de impactos da seca, encontram-se disponíveis e atualizados no Website do Cemaden (https://www.cemaden.gov.br).

 2. As informações/produtos apresentados não podem ser usados para fins comerciais, copiados integral ou parcialmente para a reprodução em meios de divulgação, sem a expressa autorização do Cemaden/MCTIC e dos demais órgãos com os quais o Cemaden mantém parcerias. Os usuários deverão sempre mencionar a fonte das informações/dados da instituição como sendo do Cemaden/MCTIC. Ressaltamos que a geração e a divulgação das informações/produtos consideram critérios de qualidade e consistência dos dados.

 3. Registramos, ainda, que os dados da rede de monitoramento de desastres naturais disponibilizados via Mapa Interativo no website do Cemaden não passaram por nenhum tratamento, portanto poderá haver inconsistências nesses dados.

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