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Previsão Climática para o Trimestre FMA/2018

Grupo de Trabalho em Previsão Climática Sazonal – GTPCS/MCTIC

Responsável Científico desta Edição:  Dr. Carlos Nobre – Presidente do GTPCS

Resumo das Condições Climáticas Atuais

O episódio de La Niña, fase fria do fenômeno El Niño-Oscilação Sul (ENOS), atingiu seu pico em janeiro ao longo do Pacífico Equatorial, com anomalias negativas de Temperatura da Superfície do Mar (TSM) em torno de -1°C. Na região do Niño 3.4 (centro-leste do Pacífico Equatorial), o índice de anomalia de TSM atingiu -0,9°C no último trimestre (OND). Os modelos de previsão do ENOS indicam a continuidade do evento La Niña até maio de 2018 e, posteriormente, gradual enfraquecimento. As anomalias positivas de TSM no Atlântico Tropical Norte e negativas no Atlântico Tropical Sul são sugestivas da ocorrência de um dipolo que poderá contribuir para a ocorrência de chuvas abaixo da média climatológica no norte da Região Nordeste do Brasil, no decorrer do próximo trimestre (FMA).

A Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) atuou na sua posição climatológica sobre o Oceano Atlântico Equatorial em dezembro e primeira quinzena de janeiro de 2018. Em dezembro, a formação de um evento de Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) contribuiu para a ocorrência de chuvas acima da média histórica em algumas áreas das Regiões Centro-Oeste e Sudeste, causando transtornos principalmente em cidades do Estado de Minas Gerais. Na primeira quinzena de janeiro de 2018, destacou-se a ocorrência de outro evento de ZCAS e episódios localizados de chuvas intensas em Santa Catarina e Paraná. De modo geral, as chuvas apresentaram-se abaixo da média do norte da Região Sudeste até o leste da Amazônia e em quase todo o Nordeste no trimestre OND e meados de janeiro.

Chuvas acima da média ocorreram em parte da Região Sul (Santa Catarina, Paraná) e no oeste de São Paulo, bem como em parte da Região Centro-Oeste até o centro da Amazônia. Em Roraima, as chuvas situaram-se abaixo da média no trimestre OND até meados de janeiro de 2018, apesar da atuação da La Niña no Oceano Pacífico Equatorial, normalmente associado à ocorrência de chuvas acima da média na porção centro-norte e leste da Amazônia. Porém, em anos de La Niña de intensidade moderada ou fraca, como é o caso do atual episódio, os sinais tanto na Amazônia, norte do Nordeste (chuvas acima da média), como no Sul do Brasil (chuvas abaixo da média) não necessariamente se manifestam.

Previsão Climática para o Trimestre FMA/2018

Figura 1 – Previsão climática por consenso para o trimestre FMA/2018.
A

previsão climática sazonal por consenso[1] para o trimestre fevereiro, março e abril de 2018 (FMA/2018) indica maior probabilidade do total trimestral de chuva ocorrer na categoria abaixo da faixa normal climatológica em parte da Região Nordeste, com a seguinte distribuição de probabilidades: 25%, 35% e 40% para as categorias acima, dentro e abaixo da baixa normal climatológica, respectivamente (Figura 1). Para a Região Norte, a previsão por consenso indica maior probabilidade de chuvas na categoria acima da normal climatológica, com distribuição de probabilidades de 40%, 35% e 25% para as categorias acima, dentro e abaixo da faixa normal climatológica, respectivamente. Para o sul da Região Sul, a previsão indica maior probabilidade de precipitações na categoria dentro da faixa normal climatológica, com distribuição de probabilidade de 25%, 40% e 35% para as categorias acima e abaixo da faixa normal climatológica, respectivamente. Nas demais áreas do País (área cinza do mapa), a previsão apresenta baixa previsibilidade climática sazonal, com igual probabilidade para as três categorias. Ressalta-se a maior probabilidade de acentuada variabilidade temporal e espacial das chuvas, principalmente na região semiárida do Nordeste, no decorrer do trimestre FMA – principal período chuvoso para a maior parte do semiárido – em função da ausência de fatores de grande escala que pudessem caracterizar uma situação climática predominante. Por um lado, a situação de La Niña no Oceano Pacífico Equatorial (que normalmente favorece chuvas no norte Nordeste) e, por outro lado, as condições no Atlântico Tropical, com o dipolo de TSM ligeiramente desfavorável (TSM mais alta do que a média climatológica ao norte do Equador e mais baixa do que a média ao sul do Equador, padrão este normalmente associado à atuação mais ao norte da ZCIT, o que implica menos chuvas no semiárido), podem indicar maior probabilidade de chuvas entre a média e abaixo da média climatológica. Para o trimestre FMA/2018, são previstas temperaturas variando de normal a acima da média para a Região Nordeste e abaixo da média para o norte da Região Norte. Nas demais áreas do País, a maior probabilidade é de ocorrência de temperaturas em torno da normal climatológica. Na Região Norte, com o aumento das chuvas nos últimos meses, os níveis dos rios Solimões e Negro encontram-se em ascensão, porém a elevação das cotas dos rios está prevista abaixo dos valores máximos históricos de inundação. Também para o rio Madeira, esperam-se cotas máximas de menor intensidade, se comparada àquelas ocorridas em 2014, que foi a maior inundação daquele rio em registro histórico.

[1] A previsão climática sazonal por consenso de especialistas é baseada na análise diagnóstica das condições oceânicas e atmosféricas globais e em previsões numéricas de modelos dinâmicos e estatísticos de previsão climática sazonal, conjunto este de informações fornecido pelos institutos do MCTIC, centros internacionais de previsão climática sazonal e INMET, FUNCEME e ANA.

Previsão de Possíveis Impactos da Previsão Climática para o Trimestre FMA/2018

  • Reservas Hídricas dos Açudes do Semiárido Brasileiro (acima de 10 hm³) Os valores de água armazenada nos açudes na região semiárida do Nordeste permanecem críticos, com volumes armazenados nos reservatórios equivalentes dos Estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, em meados de janeiro de 2018, respectivamente iguais a 4,7%, 6,1%, 11,5% e 5,8%. Com base na previsão climática sazonal para no norte do Nordeste para o trimestre FMA, a simulação da reserva hídrica para os reservatórios equivalentes destes Estados, considerando as demandas e extrações atuais, aponta que os volumes armazenados permaneçam críticos até o final do trimestre FMA, em pior situação do que em abril de 2017. Exceção para o Estado do Ceará, com possibilidade de aumentar o volume armazenado no reservatório equivalente, caso ocorram chuvas na média ou um pouco abaixo da média histórica. Projeções para o reservatório Epitácio Pessoa/Boqueirão (Paraíba) indicam que, com os aportes atuais da transposição do rio São Francisco, mantendo-se as extrações atuais, o armazenamento de água tende a aumentar, aproximando-se a 12% em abril de 2018. Ressalta-se que este cenário pode ser alterado devido a modificações nas vazões da transposição e na extração de água para o abastecimento público. Para o reservatório Castanhão, no Ceará, principal sistema de abastecimento da Região Metropolitana de Fortaleza, as projeções indicam que, o volume armazenado pode chegar até a um valor mínimo de 3,6% em abril de 2018.
  • Agricultura de Sequeiro da Região Semiárida
    Considerando o Índice Integrado de Seca (IIS), para o último mês de 2017, a condição de seca moderada permanece em algumas áreas localizadas no Rio Grande do Norte, Paraíba, norte da
    Bahia e alguns pontos dos Estados de Pernambuco, Ceará, Piauí e Maranhão. Em um possível cenário de chuvas 30% abaixo da média climatológica para o trimestre FMA/2018, a condição de seca moderada poderá afetar a produtividade agrícola dos municípios localizados no centro leste do Estado do Maranhão, norte do Piauí, sul do Ceará, oeste dos Estados da Paraíba e Pernambuco e norte da Bahia, municípios estes cujo período de plantio teve início no mês dezembro.
  • Reservatório de Três Marias do Rio São Francisco
    No mês de janeiro (até o dia 10), a vazão média afluente ao reservatório de Três Marias, no alto São Francisco, foi de 691 m³/s, aproximadamente 52% abaixo da média para este mês. De acordo com as projeções hidrológicas, mesmo em um cenário hipotético de chuvas na média climatológica para o trimestre FMA, a vazão afluente ainda ficaria abaixo da média histórica, podendo chegar a um valor mínimo de 69% abaixo da média.
  • Reservatório de Serra da Mesa, Sistema Araguaia-Tocantins
    Na Região Centro-Oeste, na bacia do rio Tocantins-Araguaia, a vazão média afluente ao reservatório de Serra da Mesa foi de 659 m³/s, aproximadamente 42% abaixo da média histórica para este mês. Segundo as projeções hidrológicas, em um cenário de chuvas na média climatológica para o trimestre FMA, a vazão afluente ficaria 40% abaixo da média, aproximadamente.
  • Queimadas em Roraima
    As queimadas registradas em Roraima até meados de janeiro de 2018, mês da estação seca e normalmente com alto número de queimadas, estiveram acima da média histórica para este
    período, mas ainda assim bem abaixo do máximo histórico registrado em janeiro de 2016. Em função da previsão de chuvas entre a média e acima da média para o trimestre FAM para Roraima, e assumindo efetividade nas ações de controle de queimadas, prevê-se um número de queimadas abaixo da média histórica para este trimestre.
  • Geração Hidrelétrica
    A previsão climática sazonal indica os possíveis impactos no que diz respeito ao sistema de geração de hidroeletricidade no País: (i) manutenção da política de redução ad defluência mínima
    das usinas da bacia do rio São Francisco; e (ii) exploração das disponibilidades energéticas das usinas da Região Sul, com transferência dos excedentes energéticos para as Regiões Sudeste e
    Centro-Oeste.

Nota Explicativa.

Esta previsão foi elaborada pelo GTPCS do MCTIC, durante a reunião climática extraordinária realizada nas dependências do CPTEC/INPE, em Cachoeira Paulista-SP, com a participação de pesquisadores e tecnologistas dos seguintes institutos do MCTIC: Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais CEMADEN) e Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA); e também de órgãos ligados à área de Meteorologia, Climatologia, Hidrologia e Desastres Naturais, a exemplo da Agência Nacional das Águas (ANA), Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), Fundação Cearense de Meteorologia (FUNCEME), entre outros. Os dados, análises e previsões climáticas presentadas e discutidas durante esta reunião, além de outras informações relevantes sobre as condições oceânicas e atmosféricas utilizadas nestas análises e a situação da chuva em todo o Brasil, estão disponibilizados no portal do INPE/CPTEC. 

ANEXO

Verificação da Previsão Climática Sazonal para o Trimestre OND/2017

A Figura 2a mostra a verificação objetiva utilizada como indicador de qualidade da previsão climática sazonal por consenso, elaborada para o trimestre OND/2017 (Figura 2b). Na Figura 2a, são mostradas as anomalias de precipitação efetivamente observadas (em termos de tercis) para as categorias acima da média (azul), em torno da média (branca) e abaixo da média (vermelho) em todo o País.

Na Figura 2b, os valores percentuais no mapa da previsão por consenso correspondem à distribuição de probabilidades de ocorrência de chuva nas categorias abaixo, dentro e acima da faixa normal climatológica em áreas específicas do Brasil. Estas probabilidades são estimadas após a análise e discussão de vários campos diagnósticos e prognósticos de previsão climática sazonal, conforme mencionado anteriormente.

A Figura 2c mostra os recorte espacial das áreas para as quais foram realizadas previsões climáticas sazonais por consenso sobreposto à Figura 2a. Observa-se razoável grau de acerto para a Região Sul, com a maior parte da área na categoria de probabilidade dentro média. Igualmente, para a região central, leste da Amazônia, oeste do Nordeste e noroeste do Sudeste, a previsão por consenso colocou maior probabilidade de chuvas abaixo média, confirmada pelas observações. Entretanto, no oeste da Região Norte, a previsão com maior probabilidade foi a de chuvas acima da média, porém as observações mostraram principalmente chuvas abaixo ou dentro da média.

Figura 2 – Verificação da previsão climática sazonal para o trimestre OND/2017 (a), mapa da previsão por consenso para o mesmo período (b), elaborado logo após a reunião climática de setembro de 2017, e mapa com a previsão climática por consenso superposta às observações de anomalias de chuva por categoria (c).

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