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Previsão Climática para o Trimestre AMJ/2018

Grupo de Trabalho em Previsão Climática Sazonal – GTPCS/MCTIC

Responsável Científico desta Edição:   Dr. Gilvan Sampaio – CPTEC/INPE 

Resumo das Condições Climáticas Atuais

As condições oceânicas e atmosféricas ainda mostram a atuação do fenômeno La Niña, em particular no setor central do Oceano Pacífico Equatorial, região do Niño 3.4 (em torno de 150°W). No último trimestre (DJF), o valor do índice de anomalia de Temperatura da Superfície do Mar (TSM) passou a -0,9°C nesta área e os alísios continuaram anomalamente intensos, consistentes com a persistência da condição de La Niña. Contudo, a maioria dos modelos de previsão de anomalias de TSM prevê o retorno à neutralidade, ou seja, ausência dos fenômenos El Niño ou La Niña no decorrer do trimestre AMJ/2018. No Atlântico Equatorial, os valores de TSM próximos à climatologia favoreceram uma maior atuação da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) em torno e ao sul de sua posição climatológica em fevereiro e início de março. Além da atuação mais ao sul da ZCIT, houve a formação de regiões de convergência de umidade, vórtices ciclônicos na alta troposfera e propagação de oscilações intrassazonais que contribuíram para o excesso de chuva especialmente nas Regiões Norte, Nordeste e Sudeste do Brasil em fevereiro passado. As estações do CEMADEN e INMET registraram acumulados diários superiores a 200 mm em cidades do Pará, Rio de Janeiro e São Paulo. Destacaram-se os 298,8 mm de chuva acumulados em 24 horas em Ubatuba (Praia de Lázaro), no litoral norte de São Paulo, no dia 23. Neste dia, houve ocorrência de inundações e deslizamentos que causaram danos humanos e materiais. Na área que engloba o sul do Mato Grosso do Sul e de São Paulo e toda a Região Sul, as chuvas ocorreram abaixo da média histórica em fevereiro. A partir de meados de março, a atuação mais ao norte da ZCIT, associada à propagação de oscilações intrassazonais, contribuiu para a predominância de chuvas abaixo da média histórica no norte das Regiões Norte e Nordeste do Brasil. O cenário também mudou no centro-sul do País, em caráter transitório, com a passagem de um sistema frontal que contribuiu para a ocorrência de chuvas acima da média histórica.

Previsão Climática para o Trimestre AMJ/2018

Figura 1 – Previsão climática por consenso para o trimestre AMJ/2018.

A previsão climática sazonal por consenso¹ para o trimestre abril, maio e junho de 2018 (AMJ/2018) indica maior probabilidade do total trimestral de chuva ocorrer nas categorias acima da faixa normal climatológica na faixa que se estende de Roraima ao norte do Pará, incluído o extremo nordeste do Amazonas, com a seguinte distribuição de probabilidades: 40%, 35% e 25% para as categorias acima, dentro e abaixo da faixa normal climatológica, respectivamente (Figura 1).

Para o norte da Região Nordeste, incluído o setor leste e parte da região semiárida, a previsão por consenso indica maior probabilidade de totais pluviométricos na categoria abaixo da faixa normal climatológica, com distribuição de probabilidades de 40%, 35% e 25% para as categorias acima, dentro e abaixo da faixa normal climatológica, respectivamente. Para o centro-sul da Região Sul, a previsão também indica maior probabilidade de chuvas na categoria abaixo da faixa normal climatológica, com a mesma distribuição de probabilidade: 25%, 35% e 40% para as categorias acima e abaixo da faixa normal climatológica, respectivamente.

Nas demais áreas do País (área cinza do mapa), a previsão apresenta baixa previsibilidade climática sazonal, com igual probabilidade para as três categorias. Ressalta-se que, no decorrer do referido trimestre, terá início o período mais chuvoso no setor leste da Região Nordeste, que poderá se desenvolver com acentuada variabilidade temporal e espacial das chuvas, como também foi previsto para o setor norte dessa Região. Para este trimestre, as temperaturas são previstas dentro da normal climatológica em todo o País.

[1] A previsão climática sazonal por consenso de especialistas é baseada na análise diagnóstica das condições oceânicas e atmosféricas globais e em previsões numéricas de modelos dinâmicos e estatísticos de previsão climática sazonal, conjunto este de informações fornecido pelos institutos do MCTIC, centros internacionais de previsão climática sazonal e INMET, FUNCEME e ANA.

Previsão de Possíveis Impactos da Previsão Climática para o Trimestre AMJ/2018

  • Reservas Hídricas dos Açudes do Semiárido Brasileiro (acima de 10 hm³) Os valores de água armazenada nos açudes da região semiárida do Nordeste permanecem críticos, com volumes armazenados nos reservatórios equivalentes dos Estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, em fevereiro de 2018, respectivamente iguais a 9,1%, 9,8%, 11,3% e 6,9%. Ressalta-se que a melhoria observada em Pernambuco, em relação ao mês anterior, pode ser atribuída, em parte, à atualização da situação dos reservatórios de grande porte. Com base na previsão climática sazonal – levando-se em conta um cenário de chuvas na média, as demandas e extrações atuais – a simulação da reserva hídrica para os reservatórios equivalentes da porção semiárida destes Estados aponta que os volumes armazenados permaneçam críticos até o final do trimestre AMJ, embora em situação ligeiramente mais favorável do que em junho de 2017. Projeções para o reservatório Epitácio Pessoa/Boqueirão (Paraíba) indicam que, com os aportes da transposição do rio São Francisco e mantendo-se as extrações atuais, o armazenamento de água tende a aumentar, aproximando-se a 20% em junho de 2018. Ressalta-se que este cenário pode ser alterado devido às modificações nas vazões da transposição e na extração de água para o abastecimento público. Para o reservatório Castanhão, no Ceará, que contribui para o abastecimento da região metropolitana de Fortaleza, as projeções indicam que o volume armazenado pode atingir 5% em junho de 2018, aproximadamente.
  • Agricultura de Sequeiro da Região Semiárida (calendário de plantio entre os meses de janeiro a março)
    Considerando o Índice Integrado de Seca (IIS), para março desse ano, a condição de seca moderada permanece em algumas áreas localizadas no Rio Grande do Norte, Paraíba e Ceará. A maior concentração de municípios afetados por secas moderadas ocorreu fora da delimitação do semiárido, nos Estados do Maranhão e Piauí. Espera-se que ocorra uma atenuação do número de municípios afetados por seca moderada e leve, mesmo com chuvas 20% abaixo da média climatológica para o trimestre AMJ/2018. Dentro deste cenário, a produtividade agrícola dos municípios cujo período de plantio teve início em janeiro poderá ser afetada no centro-leste dos Estados do Maranhão e Piauí, leste do Ceará, oeste do Rio Grande do Norte e setor central da
    Paraíba.
  • Reservatório de Três Marias do Rio São Francisco
    No mês de março (até o dia 21), a vazão média afluente ao reservatório de Três Marias, no alto São Francisco, foi de 859 m³/s, aproximadamente 21% abaixo da média para este mês. De acordo com as projeções hidrológicas, em um cenário hipotético de chuvas na média climatológica para o trimestre AMJ, a vazão afluente ficaria em torno de 75% da média histórica (MLT: 1983-2017).
  • Reservatório de Serra da Mesa, Sistema Araguaia-Tocantins
    Na Região Centro-Oeste, a vazão média afluente ao reservatório de Serra da Mesa, bacia de cabeceira do Rio Tocantins, foi de 941 m³/s, aproximadamente 21% abaixo da média histórica para este mês. Segundo as projeções hidrológicas, em um cenário de chuvas na média climatológica para o trimestre AMJ, a vazão afluente ficaria 81% da média histórica (MLT 1999-2017), aproximadamente.
  • Bacia do Rio Madeira
    Na Região Norte, observaram-se chuvas abaixo da média para a bacia de contribuição do Rio Madeira em março de 2018 e, para o próximo trimestre, são esperadas cotas abaixo do nível de transbordamento, considerando os cenários de chuva na média histórica e, num cenário hipotético, chuvas iguais as do trimestre AMJ/2014. No final deste trimestre, a média climatológica indica o início do período de vazante com redução das cotas do rio Madeira.
  • Queimadas em Roraima
    Roraima ainda registra o maior número de focos de queimadas, em comparação à demais áreas do País, e enfrenta uma acentuada estiagem desde o início do ano. No total, foram detectados 550 focos de calor pelo satélite NASA-AQUA_M-T, que representaram um aumento de 330% em comparação com fevereiro de 2017. Climatologicamente, as queimadas tendem a diminuir a partir de abril, mês no qual tem início o período mais chuvoso no norte da Região Norte.

ANEXO

Verificação da Previsão Climática Sazonal para o Trimestre DJF/2018

A Figura 2a mostra a verificação objetiva utilizada como indicador de qualidade da previsão climática sazonal por consenso, elaborada para o trimestre NDJ/2018 (Figura 2b). Na Figura 2a, são mostradas as anomalias de precipitação efetivamente observadas (em termos de tercis) para as categorias acima da média (azul), em torno da média (branca) e abaixo da média (vermelho) em todo o País. Na Figura 2b, os valores percentuais no mapa da previsão por consenso correspondem à distribuição de probabilidades de ocorrência de chuva nas categorias abaixo, dentro e acima da faixa normal climatológica em áreas específicas do Brasil. Estas probabilidades são estimadas após a análise e discussão de vários campos diagnósticos e prognósticos de previsão climática sazonal, conforme mencionado anteriormente. A Figura 2c mostra o recorte espacial das áreas para as quais foram realizadas previsões climáticas sazonais por consenso sobreposto à Figura 2a. Considerando a alta variabilidade espacial das anomalias de precipitação por categoria, mostradas na Figura 2a, houve razoável grau de acerto das previsões nas áreas que inclui parte das Regiões Norte, Nordeste e Sudeste e na Região Sul. Na grande área que engloba boa parte da Região Norte, a previsão por consenso indicou maior probabilidade na categoria acima da faixa normal climatológica (Figura 2b), porém as observações mostraram predominância de chuvas na categoria abaixo da normal (Figura 2c).

Figura 2 – Verificação da previsão climática sazonal para o trimestre DJF/2018 (a), mapa da previsão por consenso elaborado logo após a reunião climática de novembro de 2017 (b) e mapa com a previsão climática por consenso superposta às observações de anomalias de chuva por categoria (c).

Nota Explicativa.

Esta previsão foi elaborada pelo GTPCS do MCTIC, durante a reunião climática ordinária realizada nas dependências do CPTEC/INPE, em Cachoeira Paulista-SP, com a participação de pesquisadores e tecnologistas dos seguintes institutos do MCTIC: Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Centro
Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN) e Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA); e também de órgãos ligados à área de Meteorologia, Climatologia, Hidrologia e Desastres Naturais, a exemplo da Agência Nacional das Águas (ANA), Instituto Nacional de Meteorologia
(INMET), Fundação Cearense de Meteorologia (FUNCEME), Operador Nacional do Sistema Interligado (NOS), entre outros. Os dados, análises e previsões climáticas apresentadas e discutidas durante esta reunião, além de outras informações relevantes sobre as condições oceânicas e atmosféricas utilizadas nestas análises e a situação da chuva em todo o Brasil, assim como análises e previsões de impactos em vários setores, estão disponibilizados no portal do INPE/CPTEC.

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