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Pesquisa analisa 93 artigos científicos sobre sistemas comunitários de alerta

Recentemente, o trabalho científico foi divulgado na plataforma digital do Escritório para Redução dos Riscos de Desastres das Nações Unidas (UNISDR). O trabalho analisou 408 artigos científicos, publicados entre 2005 e junho de 2018, nos nove principais jornais da ciência dos riscos e desastres. Foi identificado que somente 3,43% dos estudos têm abordagens participativas voltadas à construção de sistemas de alerta centrados nas pessoas, uma das principais recomendações da ONU na agenda de redução de risco de desastres.

 

Como a ciência cidadã e as tecnologias podem envolver as pessoas para a participação direta e o apoio nos sistemas de alerta de riscos de desastres socioambientais?

Pesquisadores do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) realizaram um mapeamento sistemático para examinar a literatura sobre ciência cidadã e gestão de desastres, em especial, os trabalhos voltados para a ciência social e abordagens participativas. Ciência cidadã (citizen science)  trata da participação do público em atividades científicas que envolvem a coleta, análise e disseminação de dados e informações para fins científicos.

O trabalho resultou no artigo científico coordenado pelo pesquisador do Cemaden, sociólogo Victor Marchezini, com a participação das pesquisadoras da equipe do Cemaden Educação, de docente da Universidade Federal do ABC e  do Programa de Pós-graduação do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). O artigo foi divulgado com o título “Uma revisão de estudos sobre sistemas participativos de alerta: Caminhos para apoiar iniciativas em ciência cidadã” (A review of studies on participatory early warning systems (P-EWS): Pathways to support citizen science initiatives).

 “Em sociedades cada vez mais caracterizadas por troca de dados e informações em redes sociais, é fundamental pensar em formas de envolver as pessoas em saber como analisá-los, como perceber os riscos, como discernir os alertas que têm credibilidade daqueles que podem ser falsos (“fake news”), de modo a se prepararem para eventos extremos.”, destaca o pesquisador do Cemaden, Victor Marchezini. “É importante a participação das pessoas no sistema de alerta de desastres, principalmente, as comunidades localizadas nas áreas vulneráveis ao risco. Essas pessoas têm um papel fundamental na mobilização de emergências, em salvar vidas e prestar assistência.”, complementa o pesquisador.

Produção científica sobre ciência cidadã e sistema de alertas

Os pesquisadores do Cemaden realizaram a revisão da literatura científica de 93 artigos selecionados, cujos resultados podem apoiar futuras ações relacionadas ao sistema de alerta e à ciência cidadã. Os resultados da pesquisa mostraram que há uma concentração de estudos sobre sistemas de alerta em países asiáticos (55,9% dos estudos selecionados – Fig. 1), bem como a concentração da produção científica em organizações de países desenvolvidos (49,46% dos artigos selecionados têm autores e co-autores afiliados em organizações dos Estados Unidos, Japão, Reino Unido e Austrália- Fig. 2) . Além disso, os resultados desta revisão de literatura forneceram evidências da predominância de inundações como a principal ameaça natural estudada (29% dos estudos selecionados).

A análise sobre os estudos científicos mostrou que apenas 3,43% (14 de 408 artigos selecionados) estavam relacionados com ciência cidadã e sistema de alerta (P-EWS).  “Isso indica que é necessário muito esforço para disseminar o que é ciência cidadã e como ela pode ser incorporada na ciência e na gestão de riscos de desastres. “A prática e a pesquisa ainda precisam de aprofundamento dos estudos para ajudar as comunidades a terem acesso à ciência cidadã, com informações e conhecimento científico sobre ameaças, vulnerabilidades e risco”, alerta Marchezini. Ele explica que, atualmente, os esforços para a gestão e redução de desastres se concentram nos aspectos tecnológicos, sem compreender ainda os requisitos dos cidadãos e as formas de envolvê-los nas tecnologias de informação e comunicação (TICS), como o projeto Cemaden Educação tem se dedicado a fazer no âmbito da ciência cidadã para prevenção de risco de desastres. .

O coordenador do estudo destaca três recomendações principais para a promoção de novas iniciativas envolvendo ciência cidadã e sistema de alerta. Em primeiro lugar, que  as ações em gestão de riscos e desastres precisam reconhecer a importância e utilidade de dados providos por cidadãos. Em segundo, as ações de pesquisa e de gestão em riscos e desastres precisam desenvolver trabalhos interdisciplinares e transdisciplinares com a abordagem de ciência cidadã. Por final, é preciso considerar os diferentes contextos de cidadania e da prática científica, de modo a subsidiá-las com ações suplementares de gestão de risco de desastres como, por exemplo, reduzir a vulnerabilidade e melhorar o acesso a serviços públicos básicos.

Além do coordenador da pesquisa Victor Marchezini, participaram do trabalho científico as pesquisadoras Patrícia Matsuo, Rachel Trajber e Débora Olivato, do Cemaden Educação;  os pesquisadores : Flávio Eduardo Horita, da UFABC e Miguel Ángel Trejo-Rangel, do Programa de Pós-Graduação em Ciência do Sistema Terrestre, do Inpe.

O artigo completo está disponibilizado gratuitamente na Plataforma Preventionweb da UNISDR, pelo endereço:

https://www.preventionweb.net/publications/view/61712

Figura 1: Distribuição dos estudos selecionados de acordo com os países estudados (Fonte:Cemaden)

 

Figura 2: Distribuição da filiação institucional de autores(as) e co-autores (as) dos estudos selecionados, de acordo com os países da organizações (Fonte:Cemaden)

(Fonte: Ascom/Cemaden)

 

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