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Cientistas alertam que dados subestimados de áreas de queimadas na Amazônia podem comprometer informações sobre emissão de carbono

Imagem do sensor OLI a bordo do satélite Landsat 8, registrada em 16 de abril de 2016, após um período crítico de queimadas no estado do Maranhão, na Reserva Biológica do Gurupi. Na imagem, observa-se diversas coberturas da terra impactadas pelo fogo, como áreas de cultivo e florestas.

 

Pesquisadores calculam que a área afetada por fogo, em 2015, pode ser subestimada em 98% no estado do Acre, dependendo do dado de satélite utilizado. Isso pode significar que não foram considerados o registro de quase 30 Tg (30 milhões de toneladas) de emissão de carbono por ano. Essa subestimativa também foi observada em outros estados da Amazônia.

O monitoramento e quantificação de área queimada na Amazônia em escala global podem ser subestimados quando comparados com dados na escala regional, afetando as estimativas de emissão de carbono relacionada com o fogo, responsável pelos gases de efeito estufa e alterações climáticas. Isso  impacta a contabilização dos inventários nacionais e as definições de políticas públicas no País.

O estudo foi realizado por cientistas brasileiros e britânicos para avaliar a performance relativa ao resultado dos dados de satélites processados e organizados para pronto uso (denominado, cientificamente, como “produto”) sobre a área queimada para a região Amazônia, selecionando o ano de 2015.

A conclusão sobre as comparações dos dados aplicados na quantificação de áreas queimadas chegou a uma subestimativa de 98% no estado do Acre. Pela comparação entre um produto global com um regional, verificou-se que pode haver a omissão de quase 30 Tg (30 milhões de toneladas) de carbono emitido ao ano. Essa subestimativa se mostrou significativa entre as diferentes coberturas da terra (floresta e não-floresta) e variou espacialmente na região Amazônica.

O artigo científico foi publicado na Revista Remote Sensing, intitulado “Intercomparison of Burned Area Products and Its Implication for Carbon Emission Estimations in the Amazon” (Intercomparação de produtos de área queimada e sua implicação para estimativas de emissões de carbono na Amazônia). Os autores são os cientistas brasileiros integrantes do Laboratório “Tropical Ecosystems and Environmental Sciences” (TREES), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais  (INPE), co-liderados pela pesquisadora Liana Anderson, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden)- unidades de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações –  em colaboração com cientistas da Universidade Federal do ABC e dos cientistas britânicos das Universidades de Lancaster e de Exeter (do Reino Unido).

Os autores destacam que, apesar do relevante impacto dos incêndios florestais na Amazônia como causador das emissões de carbono, principalmente, durante secas extremas, essas informações sobre emissões relacionadas a incêndios florestais ainda não são contabilizadas nos inventários nacionais.  Somente o produto desenvolvido pela agência espacial norte-americana (NASA) – classificado como produto MCD64A1- apresentou resultados que não difere estatisticamente do produto TREES/INPE, único produto em escala regional usado na comparação.

A importância de mensurar corretamente as áreas queimadas

Para Liana Anderson, pesquisadora do Cemaden, pela ausência de um produto nacional oficial para o monitoramento, a longo prazo, de florestas degradadas pelo fogo, permanecem os produtos globais como única opção confiável e operacional, representando mais de 15 anos de dados para expor a magnitude das perdas socioeconômicas e ambientais enfrentadas na região.

Ana Carolina Pessôa, líder do estudo, doutoranda em Sensoriamento Remoto pelo INPE, explica que o inventário nacional de emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE) é um documento que informa à comunidade internacional sobre o panorama das emissões no Brasil. Destaca que esse dado oficial indica se o País  está no caminho certo para o cumprimento de acordos internacionais, como o Acordo de Paris, e para metas estabelecidas em políticas públicas nacionais, como a Política Nacional sobre Mudança do Clima (Lei nº 12.187 de 29 de dezembro de 2009). “Sem uma estimativa correta dos efeitos dos incêndios florestais sobre as emissões de GEE, corremos o risco de estarmos inflando nossa performance na mitigação das mudanças climáticas, e consequentemente, mandando uma mensagem errada para a comunidade internacional”, explica a pesquisadora.

Os resultados dos estudos são obtidos com a comparação de três produtos de áreas queimadas globais: um desenvolvido pela NASA, outro pela Agência Espacial Européia (ESA) e o terceiro por um grupo de pesquisadores da Academia Chinesa de Ciências, além de um produto regional desenvolvido pelo Laboratório TREES. No estudo, foram consideradas as diferentes metodologias de mapeamento, resoluções e escalas espaciais para analisar a magnitude da diferença entre o total de área queimada, detectado por cada produto, e, consequentemente, nas estimativas de emissão de carbono. Além disso, avalia-se a coerência espacial entre os produtos. Segundo o pesquisador do INPE, Jean P. Ometto, um dos coautores do estudo, “os resultados encontrados permitem amplificar o conhecimento e melhor avaliar as informações geradas no importante debate sobre áreas naturais queimadas no País”.

Segundo a bióloga Nathália Carvalho, coautora do estudo e doutoranda do curso de Sensoriamento Remoto no INPE, o objetivo do estudo não foi de validação dos diferentes produtos, mas de avaliação da performance regional deles, comparando uns com os outros. “A escolha de qual produto usar precisa considerar o fenômeno e a escala do objeto de estudo, além dos parâmetros dos dados usados no mapeamento e, principalmente, as limitações que isso pode causar no resultado final”.

O economista Thiago Morello, coautor do trabalho e professor da Universidade Federal do ABC, destaca que o resultado mais provável em uma intercomparação de produtos de áreas queimadas é obter diferentes padrões, mas ressalta: “Além das diferenças, existem também padrões similares entre os produtos, e quanto mais produtos apontam para um mesmo padrão, maior a chance de o padrão ser real”.

A pesquisadora do Cemaden, Liana Anderson, considera que é relevante obter o conhecimento sobre as extensões das áreas queimadas, o que está queimando, origem e finalidade do fogo, ou se alastra nas diferentes regiões de nosso território. “Somente com este tipo de informação poderemos não só planejar ações de combate e recuperação das áreas degradadas, mas também planejar ações de curto, médio e longo prazo para evitar os impactos negativos para a sociedade e meio ambiente desses eventos”, afirma a pesquisadora.

O artigo na íntegra “Intercomparison of Burned Area Products and Its Implication for Carbon Emission Estimations in the Amazon” pode ser acessado pelo link :

https://www.mdpi.com/2072-4292/12/23/3864

Um vídeo explicativo sobre o trabalho científico pode ser visto em: https://youtu.be/mcl2zSUTnAg

Fonte: Ascom/Cemaden

 

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